Morar com identidade é deixar a casa falar da gente

Morar com identidade é deixar a casa falar da gente

Tem uma coisa que eu fui entendendo com o tempo: casa bonita tem um monte por aí. Revista, Pinterest, loja, showroom, tudo mostra casa bonita. Mas casa com alma, casa que parece que tem gente vivendo de verdade ali dentro, aí já é outra história.

Eu sempre gostei de cuidar de casa. Antes mesmo de estudar design de interiores, antes mesmo de pensar em loja, eu já tinha esse prazer de ajeitar um canto, mudar uma peça de lugar, olhar para uma parede e pensar: “isso aqui ainda está meio sem vida, visse?”. Para mim, casa nunca foi só lugar de dormir. Casa é onde a gente se reconhece.

Quando saí de Pernambuco e vim para São Paulo, isso ficou ainda mais forte. São Paulo é grande, rápida, cheia de concreto, cheia de pressa. No começo, a gente se sente meio engolido mesmo. Primeiro morei na casa da minha irmã mais velha, que para mim sempre foi quase uma segunda mãe. Depois veio a casa do meu amigo Fábio. Mais adiante, quando conheci meu atual marido, a vida deu outro rumo bonito: com poucos meses a gente já estava morando junto, construindo a nossa casa do afeto. E no meio disso tudo ainda teve a casa-depósito, que foi o primeiro “escritório” da Inácia, onde as peças começavam a se misturar com a vida real. Acho que foi passando por essas casas que eu entendi melhor uma coisa: cuidar do lar era também um jeito de me manter perto de mim mesmo. Cada objeto que eu escolhia, cada textura, cada cor, cada lembrança que eu trazia para dentro de casa era uma forma de dizer: eu estou aqui, mas eu não deixei de ser de onde eu vim.

Foto: Parque da Luz - São Paulo/SP (2013)

Depois dos trinta, fui fazer faculdade de Design de Interiores. E foi doido porque eu já tinha esse gosto pela casa, mas a faculdade me ajudou a organizar o olhar. Comecei a entender melhor proporção, escala, luz, circulação, composição. Aprendi que uma peça não entra num ambiente só porque é bonita. Ela precisa conversar com o espaço, com quem mora ali, com a luz que bate, com a história que aquela casa quer contar.

Foto: Primeiro vídeo gravado no novo apartamento

Mas uma coisa eu também entendi: técnica nenhuma substitui emoção.

A casa pode ter a medida certa, a iluminação certa, o móvel certo, mas se ela não tiver identidade, fica parecendo cenário. Bonita, mas fria. Arrumada, mas sem vida. E eu não acredito muito nesse tipo de casa, não. Gosto de casa que tem marca, lembrança, mistura, afeto. Casa onde a pessoa olha para uma peça e sabe por que ela está ali.

É por isso que o fazer à mão brasileiro me interessa tanto.

Não falo só do “feito à mão” como uma frase bonita para colocar na descrição do produto. Falo do fazer à mão como presença mesmo. Uma peça feita por um artesão carrega o tempo de alguém. Carrega uma região, uma técnica, uma memória, um jeito de trabalhar que muitas vezes atravessa família, cidade, feira, barro, madeira, palha, tecido, reza, silêncio e conversa.

Quando uma peça assim entra numa casa, ela muda o ambiente. Não porque ela combina com a cor do sofá. Mas porque ela traz assunto. Ela puxa memória. Ela quebra aquela sensação de casa montada igual a todas as outras.

Às vezes é uma cerâmica que não é perfeitamente igual de um lado e do outro. Às vezes é uma escultura que parece simples, mas tem uma força danada. Às vezes é uma luminária feita a partir de um vaso, uma cesta, uma forma que já existia em outro contexto e ganha outra vida. O bonito, para mim, está muito nisso: no objeto que não nasceu para ser só decoração, mas que, quando entra na casa, faz a gente olhar de novo.

Eu gosto quando uma peça brasileira não entra no ambiente como fantasia de Brasil. Não é para transformar a casa num cenário temático. Não é colocar tudo junto, tudo colorido, tudo “tropical” só para dizer que tem brasilidade. Isso pode ficar caricato num instante.

O que me interessa é outra coisa: é trazer o Brasil com verdade.

Um barro de Pernambuco pode estar ao lado de um móvel contemporâneo. Uma xilogravura pode conviver com uma parede bem limpa. Uma peça popular pode estar numa sala sofisticada sem pedir licença. O segredo está no olhar, na escolha e no respeito. Quando a gente coloca uma peça feita à mão dentro de casa com esse cuidado, ela não diminui o ambiente. Pelo contrário: ela dá profundidade.

Foi muito por isso que a Inácia nasceu. A Inácia tem o nome da minha mãe, e talvez por isso ela sempre tenha carregado, para mim, essa ideia de origem, de cuidado e de casa. Não nasceu só para vender peça bonita. Nasceu desse desejo de aproximar as pessoas de objetos que tenham história, presença e identidade.

Eu acredito que morar bem não é ter a casa mais cara, nem a mais perfeita. Morar bem é olhar em volta e sentir que aquilo ali tem alguma coisa sua. Que tem escolha. Que tem lembrança. Que tem vida.

E uma peça feita à mão no Brasil pode fazer muito por uma casa. Ela pode aquecer um canto. Pode dar força a uma mesa. Pode fazer uma parede parar de ser só parede. Pode lembrar de onde a gente veio. Pode apresentar ao outro uma história que talvez ele nunca tenha ouvido.

No fundo, decorar é também escolher o que a gente quer manter por perto.

E eu, cada vez mais, quero manter por perto aquilo que tem mão, tempo, origem e verdade.

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